Hoje não

Pra que negar o sentimento? Ou privar a sensação? Deixa a fechadura, abre sua porta, que entre o vento então.

Roda sua saia, despenteia teu cabelo, anda descalça. Deixa a maquiagem, grita teu brado, esqueça a espinha.

Pega tua caneta e rabisca tua folha. Escreve com caneta e risca por cima. Faz da sua vida arte e vai, menina.

O forno esqueça ligado, deixa a janela aberta, molha a casa de chuva.

Anda com a roupa amassada, esquece do padrão imposto, tranca o preconceito pra dentro. Foge.

Sai pelo passeio sem destino certo, deixa a chave na porta e convida a novidade. O ar circula na rua, abre a janela e deixa passar a chuva. Viva a diversidade.

Esquece do que foi, importa o que é, deixa o passado pra depois e simplesmente vá a pé.

Não use relógio, guie-se pelo sol e enquanto houver luz haverá festa. Quando a luz se for, o passo de trás ficou, a decisão envelheceu mas o futuro ainda é seu.

O tempo passa sempre, então deixa passar, não corre atrás. Faz da vida a arte de viver, sem medo de sua história desaparecer.

Esqueça dos padrões, assume o controle. O padrão e o objetivo ou o sucesso, questão de opinião. Leva a tua vida longe da imposição.

Não, não, Padrão. Hoje não.


A Culpa é das Estrelas e o amor como fonte finita

O romance de John Green, que foi adaptado ao cinema e está em cartaz bombando no país inteiro, é suave apesar de tratar de um tema um tanto quanto pesado. O enredo inicialmente trata da história de amor de Hazel Grace e Augustus Waters, mas a um olhar levemente mais atento revela-se uma temática muito mais profunda do que um drama adolescente. O amor, a companhia, sentimento de perenidade e o depois que talvez não chegue.

Hazel e Augustus vivem alguns dilemas. Primeira e obviamente enfrentam o câncer e suas sequelas e isso permeia a história toda, não teria como ser diferente. Mas o câncer tem papel ambíguo no enredo: tem certo protagonismo, afinal é uma doença devastadora filha da puta, mas também serve como plano de fundo para uma história mais complexa do que jovens-amantes-com-câncer.

Além de serem doentes, fato que Hazel trata de deixar bem claro lembrando que a morte é um destino e não um possível desfecho para sua doença, os dois são adolescentes e enfrentam todos os percalços da vida de um adolescente. A mãe de Hazel quer a todo custo que sua filha supere uma possível depressão conhecendo pessoas com os mesmos problemas que os seus em um grupo de apoio. Gus lida de maneira mais independente com seus problemas usando um cigarro dependurado na boca assegurando de maneira metafórica o controle sobre a sua vida: o cigarro tem o poder de te matar mas não o faz se não for aceso.

Não quero tratar do filme em seus aspectos ténicos, fazer uma resenha crítica ou bancar o conhecedor de cinema pois não o sou. Quero, a partir de agora, depois de uma ideia geral do que trata a história, explorar o caminho que John escolheu para tratar do sentimento de perda a partir da convivência com a morte iminente, do amor e das inúmeras sensações que ele é capaz de propiciar.

O namoro de Hazel e Gus é moroso. Demora a se desenrolar. Não é aquela explosão de sentimentos que engole o casal que de repente se vê no facebook “namorando” com os likes subindo sem parar, as mensagens no whatsapp bombando ou sei lá mais o que acontece quando se namora. Eles se apaixonam com o tempo, de maneira leve. Se conhecem, se encantam com a possibilidade de ter encontrado alguém pelo qual “seria um privilégio ter o coração partido” como Gus define sua amada e, mesmo com o peso de ser uma “granada que a qualquer momento pode explodir” como diz Hazel, finalmente se deixam levar.

Esse ritmo mais lento, menos explosivo e mais real que John atribui ao amor traz certa maturidade ao sentimento e à história, acabando com qualquer possibilidade de “romance pra menininha”. Tendo isso estabelecido, a narrativa conduz a alguns questionamentos levantados pelas personagens e moídos por nós que vamos percorrendo a história com os olhos.

O sentimento de perda não é uma constante em um relacionamento, afinal a morte ou o fim de um namoro parecem sempre tão distantes que não nos damos o trabalho de sofrer por antecipação. Em A Culpa é das Estrelas essa realidade é subvertida, afinal a qualquer momento o namoro pode acabar pela morte de algum deles. E eles lidam com isso da melhor maneira possível.

Cada momento deles é único, cada palavra trocada tem uma importância distinta e cada uma das sensações é única (aqui vale ressaltar uma característica da obra, tanto a escrita quanto a película: os momentos do enredo são bem separados, detalhados e vividos na história de maneira suave e contribuem para o estabelecimento desse ritmo suave no amor). O amor deles é essencialmente companheiro, compartilham entre si a oportunidade de ter alguém com quem falar sobre o mundo e sobre suas próprias aflições. O amor é vivido por Hazel e Gus em sua plenitude de sensações, suave e fluído como deve ser.

O depois não existe para Hazel e Gus, mas nem por isso a vida é tratada com caráter imediatista. Ter consciência de que tudo é finito, de que o fim é simplesmente parte da jornada, dá um caráter maduro interessante ao amor e acaba conduzindo o amante a aproveitar o sentimento em sua plenitude (e finitude). Perde-se muito das sensações e dos momentos por se ter convicção de que o fim está sempre distante, quando na verdade essa certeza fajuta é uma prova da insegurança e do medo que a possibilidade de fim traz.

Esconder-se dos momentos em que deixamos para trás alguns capítulos da vida, tentando se enganar, deturpa a qualidade principal do amor: ele deve ser sentido em todos os seus estágios, deve ser degustado como um champanhe e deixar-se sentir o gosto das estrelas que explodem no céu da boca. O amor é uma fonte que deve ser tratada com um bem não renovável, assim como a água. Cada gole de amor deve ser saboreado e vivido, degustado e sentido.

A certeza de que se estará sempre na companhia de quem se ama é enganosa. Não traz segurança, não estimula o convívio e acaba ainda colocando as relações em stand-by, deixando tudo sempre para o depois mesmo sem saber se ele virá.

Depois, na verdade, é sempre tarde demais. O que foi feito para ser vivido tem que sê-lo agora. Alguns infinitos são maiores do que outros e a sua grandeza depende de como ele é aproveitado. As coisas são infinitas não só enquanto duram, talvez as coisas sejam infinitas na mesma medida de tempo em que podem ser sentidas.

Nossa festa

        O carnaval é a festa popular mais conhecida do Brasil. Sua importância transpassa os limites turísticos e econômicos atingindo em cheio a realidade que é destruída na e pela desordem carnavalesca: é a cultura do país que invade as ruas, com seus preconceitos e lutas.
             A festa é pautada essencialmente na desordem. Homens vestem-se de mulher, a alta burguesia das cidades larga os trajes engravatados no armário e peregrina pelas ruas usando chinelos e fantasias, a parcela marginalizada – e cativa da opressão – traveste-se de nobreza e o cinza cotidiano é transformado em um mar colorido de encher os olhos de qualquer gringo que passe por aqui entre fevereiro e março.
            É evidente que a desordem planejada pretende esconder e driblar a sofrível, e tão famosa quanto a festa, realidade brasileira utilizando-se de artifícios efemeramente divertidos. Altera-se o grau de consciência e assim o fardo da vida é algo suportável. Não se pode analisar a festa de maneira coerente sem ter clareza de seu propósito supracitado.
            Diz-se que é necessário enlouquecer por alguns momentos para que se possa viver de maneira sã a maior parte dos dias. Nada mais natural do que uma festa como o carnaval, nada mais adequado que o carnaval. Talvez nada seja melhor ou mais brasileiro do que essa festa, principalmente aos olhos dos que vivem oprimidos por uma realidade machista, racista, homofóbica e ditadora.
            Esconder-se em personagens, fingir ser parte de outra realidade, abrir mão de ser real, esquecer de si mesmo e festejar a oportunidade de fazer isso tudo. O brasileiro faz isso sempre. 365 dias ao ano. A diferença é que geralmente o faz para sobreviver, durante o carnaval é só diversão, mas acaba configurando também um brado revoltoso.

              Esse é o carnaval e não se deve exigi-lo mais que isso. 

Homens bolha

            Passa-se boa parte da vida tentando a manutenção de uma realidade paralela. O que é quase aceitável, afinal a realidade é geralmente assustadora e desafiadora o suficiente para que muitos se escondam. O problema reside no fato de que, ao esconder a realidade, perde-se noção de que a fantasia é pura e simplesmente irreal e que a realidade é praticamente imutável sob o julgo da nossa falta de tesão em viver.
            O medo de ter que encarar a vida é mais facilmente percebido nos momentos de mudança. Até porque a rotina - da realidade - às vezes cria uma microfantasia, um exemplo disso é a bolha da vida na escola, faculdade ou emprego. Alternamos entre bolhas a vida toda. Logo saí da bolha do Ensino Fundamental e me senti livre. Saí da bolha do Ensino Médio e mais uma vez me encontrava livre. Na faculdade a mesma coisa. De repente acabo me aprisionando no sentimento de liberdade trazido pela falta dela.
            Sem mais nem menos encontramo-nos perdidos. Não por falta de anseios, sonhos, desejos, projetos... Mas simplesmente por acharmos sempre que todos eles são infactíveis. A impossibilidade de tudo acaba nos afastando de realizar nossa própria realidade enquanto, na verdade, as possibilidades são tantas que nos seria possível escrever a mesma história de infinitas maneiras, com infinitas pessoas e em infinitos lugares – acredito que assim que a vida ocorra fora do mundo preto e branco no qual nos abrigamos.  
O medo é a maior prisão que carregamos. Medo de simplesmente ser, de fazer, de lutar, de rir, de dançar, de emagrecer, ou de simplesmente não se importar com os padrões, de ser autêntico, de se vestir com moletom o tempo todo, de andar por aí com um poncho sobre os ombros porque assim o mundo parece um pouco mais afastado, dando mais espaço para que se possa respirar.
Há ainda o medo de se esforçar para realizar objetivos, por mais necessário que o esforço seja. Eu tenho esse medo. Acredito que esse receio possa ser atribuído à sociedade das aparências, essa coisa de que “ter” é mais importante do que “ser” e “parecer” é muito mais atrativo do que realmente mostrar o que se é. Acho que já tive medo de seguir em frente com alguns projetos por imaginar que a imagem que fariam de mim seria indesejável (top 5 na lista dos pensamentos idiotas).
            Ao deixar sonhos de lado, seja por preguiça, medo, idiotice, ou tudo isso junto, acabamos mudando o que somos ou essencialmente seríamos. Na maioria das vezes nós somos os nossos próprios destruidores de sonhos. Nossos próprios limites são maiores do que as impossibilidades do mundo que, muito pelo contrário, nos abre milhares de portas todos os dias.     
            Falta ousadia de levantar mais cedo, ou mais tarde, caminhar, ou ler, ou escrever, ou ouvir músicas novas, conhecer pessoas novas, ou dormir mais. Há medo demais do desconhecido, mas o desconhecido é, mais do que importante, fundamental para que não nos limitemos às bolhas que a rotina nos impõe. Quebre a bolha e faça da Terra a realidade e não as quatro paredes do seu quarto.
            Quebrando a rotina das nossas fantasias é natural que se perceba que a realidade é, além de assustadora como afirmei lá no primeiro parágrafo, atraente, incitante, colorida, repleta de aromas e sensações que sem dúvida trazem novo ânimo. Acordar e perceber que há uma infinidade de possibilidades é razão suficiente para que se corra atrás dos sonhos. Aceitar que a segurança trazida pelo quarto e a insegurança de ser tão pequeno frente à realidade são sentimentos paradoxais e que tem seus efeitos “paradoxados”. A segurança do quarto não estimula e a insegurança da realidade instiga. Os sonhos começam no quarto e podem morrer nele também, só tornam-se realidade quando as quatro paredes são superadas e assim não há mais um ambiente controlado.

             Buscamos prever o imprevisível e controlar o incontrolável quando, na verdade, a incerteza do passo seguinte é o que nos faz querer seguir. 


Só mais uma

Às vezes perco o que sou pelos pensamentos, viajo aos lugares mais distantes ou vou até um teatro antigo e largado, mas no final acabo sempre em um vazio completo, o caos da minha mente.

Nunca chego à conclusão alguma e parece que minha alma e espírito, juntos, flutuam em um ensopado de desgosto e, banhados em minhas memórias, morrem junto do meu passado. Meus atos são vagos e me parece que há somente uma causa: sem passado não há futuro algum que sobreviva; aparentemente o único passado que me importa são as palavras que acabo de escrever. Sigo sem rumo específico, sem vontade, sem pretensão.

Talvez a melhor maneira de se viver seja realmente imaginar que nada mais do que construir memórias seja o presente e o futuro. Como se tudo que se faz “fosse” somente por um segundo e logo depois não passasse de uma ilustração de um longínquo e esquecido passado desgostoso. Como tudo deve ser.

Não que minha mente queixe-se disso ou então seja chaga. A realidade mostra-se cada vez mais séria e menos distante. O tic-tac do relógio é realmente irrefutável e de uma hora para outra já não estamos ou pertencemos aqui ou ali. Nunca estamos atrasados ou realmente perdidos, afinal quem nos persegue é o tempo... O contrário é só mais uma das ilusões que rezamos para sempre acreditar.


22/03/2013

A crônica dos cinco meses

Andei pensando, na verdade isso é grande parte do que fiz nos últimos cinco meses, e a conclusão a que cheguei é que a maior parte dos últimos três anos eu passei sendo alguém que não faz parte da minha essência. Meus momentos de descontrole superaram os de “normalidade” e eu perdi muito por causa disso. Não só perdi pessoas que se afastaram, que desistiram de mim, mas perdi parte do que eu sou, do que eu gosto e talvez perdi parte do que um dia eu quis ser.  Pretendo resgatar quase tudo.
Os motivos não importam, afinal o problema sempre foi meu e a necessidade de passar por eles sem que eu me tornasse outra pessoa era minha. Por outro lado, se ao menos eu tivesse me dado o tempo necessário de pensar, repensar e só depois agir... Tudo poderia ter sido diferente. A razão fez falta. Culpo meu sentimento imediatista mimado de filho único por muitas das minhas características reacionárias e nem um pouco justas, coerentes ou necessárias; mas também não me esqueço de tudo que passei, das mudanças que presenciei e das responsabilidades que tive de assumir. Eu fui uma bagunça. Mas acabei crescendo em alguma denotação ainda obscura. Tive bastante tempo de colocar tudo meio que em uma balança, mas ainda não encontrei o equilíbrio.
Sobretudo isso, eu ainda imagino a necessidade gritante de espaço que todos temos. Afinal, dia após dia todos enfrentamos situações que bagunçam com a mente, com a alma, com o coração, com o espírito e consequentemente com a nossa essência. Dia após dia não somos mais o que éramos antes. Dia após dia precisamos de algum espaço que nos traga de volta ao que realmente somos. E se ao menos nós nos déssemos a oportunidade de voltar a agir normalmente, de voltar a deixar a essência superar o momentâneo e  jamais esquecer que por trás daquela atitude descabida existe uma justificativa, - que insignificante para você ou não, afetou o ser confuso que adotou aquela postura indelicada, impensada, descabida, destrutiva, explosiva, degradante, imoral, cruel, rude, anormal -, e mais do que uma justificativa, ainda existe alguém ali que em algum momento se deixou revelar assumindo todos defeitos e incapacidades e que em nenhum momento negou um pedaço que fosse de sua alma, à você, à quem quisesse ver. 
Permitir-se ser menos “eu” e aceitar que apesar da necessidade da solidão, a felicidade está onde se tem compaixão, cuidado, amor e consequente completude. Ninguém é autossuficiente, elevando suas próprias qualidades e apontando defeitos em tudo e em todos. A impossibilidade de levar em frente o que eu acreditava como ideal esbarrava na necessidade de felicidade, mas nem disso eu sabia. Tive que entender meus erros, aceitar que tudo que eu achei que fosse realmente tinha passado e que a necessidade de me resgatar de mim mesmo era urgente. Afundara junto e fiquei sozinho.
Depois de um tempo é natural retomar a realidade, encontrar em si mesmo um motivo que dê vontade de ser feliz: simplesmente por ser o que eu sou. Até porque ser feliz com alguém depende primordialmente de estar feliz consigo mesmo. Fazer alguém feliz é parte de um processo que envolve sorrir e fazer sorrir, chorar e saber acalmar um choro, saber e entender o que agrada e aceitar ser agradado, respeitar antes de qualquer coisa e saber o momento de deixar.
De deixar um pouco de si mesmo para trás, ou ainda de resgatar o que de si se perdeu. O processo de resgates nunca acaba. Eu busco o equilíbrio incessantemente. O equilíbrio é alcançado quando uma ponta da vida encontra a outra e num sorriso todo o resto faz sentido e parte nenhuma de ninguém se perde, apesar dos momentos em que a tormenta arranca parte do que é necessário e irrevogável, encontra-se no fundo da essência de si mesmo os motivos pelos quais houve necessidade de outro alguém para te fazer sentir completo.
Hoje acho que encontrei meu caminho de volta. A vida vai dar a oportunidade de eu provar pra mim mesmo que minha essência não se perdeu, ou que ao menos é possível recuperá-la.
Espero. 

21.05.2013

Ao acaso.

Vocês já por algum qualquer motivo pararam para pensar em como tudo que acontece teve chances mínimas de acontecer de fato? Saindo de um universo pequeno como o interior da sua casa. Qual era a chance de você despertar às 10h da manhã com o barulho da goteira no andar de cima e dar de cara com o céu mais azul que nunca antes se viu? Céu azul que te motivou a pensar, improvavelmente, em como a cor do oceano varia de acordo com sua temperatura, composição química e principalmente profundidade. De repente você comenta com seu amigo no facebook mais tarde e ele te diz que queria mesmo falar com você porque aquela música fez com que ele pensasse, do nada, em vocês dois e naquele milésimo de segundo os dois se apaixonaram. Depois de anos casaram. Seus filhos gêmeos nasceram no mesmo dia em que aquele céu azul motivou tudo e de repente sua vida está lá. Feita. Feita do acaso.
Ao acaso.
Um amontoado de coincidências. Uma combinação improvável de resultados é o que todos somos. E quem disse que isso diminui o valor da vida? O milagre que a vida é justifica-se assim. Sem querer, sem muito pensar, de repente tudo que a gente fez na vida teve alguma consequência séria no nosso destino. Talvez aquele panfleto que você pegou na rua e que logo mais na frente foi descartado no lixo impediu que um carro te atropelasse e que suas pernas ficassem inutilizadas assim como todo o resto do seu corpo, tetraplégico sua vida inteira seria em uma cama. O acaso não quis assim. Sem querer você driblou o destino e mudou sua história. Seu caminho não era esse porque você de alguma maneira não quis, mas ao mesmo tempo você nem ao menos teve intenção de sobreviver, talvez com aquela raiva injustificada pegou aquele panfleto inútil e ele te salvou. Depois nem sabia que deveria comemorar agradecendo e acabou vivendo como se tudo que acontece na sua vida fosse uma merda, um problema, algo tão grande que jamais pode ser superado. Que inútil.
É muito interessante como somos ingratos, analisando tudo por esse viés. Ingratos por poder estar aqui. Só. Na verdade, qualquer viés adotado demonstra o quão insatisfeito e ganancioso o ser humano é. Na sua essência o homem moderno condiciona-se a pensar no agora e a reclamar do agora. Sem pensar nunca que, na verdade, o agora é culpa quase que somente do que se fez antes. Quase sempre. Um ou outro ponto é encontrado fora dessa reta do destino escrito dia após dia, como uma doença ou um acidente na estrada, que às vezes em nada tem a ver com escolhas, mas com “era pra ser assim”... É mais alto do que nossos olhos tangem.
O acaso é um presente, coroado pelo livre arbítrio. O “direito” que a vida te dá de escolher se levantar para enganar teu pai durante o dia e dormir a noite sem nem pensar nisso no final é o mesmo que 20 anos depois vai te lembrar que o velho chato queria o teu bem e que o tempo passou, que o velho passou, que você está por conta própria desde o começo na verdade,  que a escolha foi sua, e que realmente você sempre foi avisado e optou por não ouvir, mas que apesar disso tudo, você ainda tem como mudar. E fazer diferente. E a partir de agora, fazer valer a pena. A vontade é sua. O destino é seu. A vida é tua. O problema na verdade foi sempre seu. E a chance na verdade é agora. Assim como foi antes. Seu destino esteve sempre nas suas mãos e nunca é tarde demais para fazer de novo.
A possibilidade de eu estar aqui com o computador no colo de madrugada escrevendo esse texto é a mesma de minha mãe ter se mudado para o Canadá dez anos atrás em uma oportunidade de emprego. E como eu sou grato ao “mundo”. Grato por ter a oportunidade de viver do acaso. De remodelar meu destino sem perceber. De ouvir uma música boa com alguém que gosta da mesma música que eu e de sorrir por causa disso. De simplesmente ter a chance de fazer de novo. De conhecer gente nova. De me surpreender. De estar aqui. De investir tempo conhecendo mais de cada um. De simplesmente me arrepender. De eu ser alguém. De me inspirar na nossa conversa. De me frustrar, mas ter vontade de tentar de novo e de não me cansar até não ter mais outra saída. De amar. De perder meu tempo. De errar. De levantar mais uma vez amanhã. Ou de adoecer. De aprender. De ser esquecido. De aprender que eu consigo viver por mim mesmo, mas que é bom e dá mais sentido à vida viver para os outros. Oportunidade de fazer do meu acaso, o acaso mais especial do mundo. Espero que o acaso na sua vida seja especial também.

14.01.2013